Com curadoria de Hans Ibelings e de John Zeppetelli, e curadoria assistente de Daniel Madeira, o projeto parte do termo proto-indo-europeu ghabh — origem da palavra habitat — para explorar as ideias de segurar, de dar e de receber enquanto gestos fundamentais da experiência artística e social. Mais do que um formato expositivo tradicional, a bienal propõe-se como um espaço de interação entre obras, artistas, arquitetura e públicos.
Para os curadores, esta edição assume-se como uma oportunidade para questionar o próprio conceito de exposição, aproximando-o da ideia de habitat, enquanto lugar que acolhe e transforma. A proposta enfatiza a relação entre arte e arquitetura, colocando ambas em diálogo e sublinhando a sua importância na construção de experiências partilhadas.
Mosteiro de Santa Clara-a-Nova como núcleo central
O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova volta a assumir-se como núcleo central da bienal, funcionando não apenas como espaço expositivo, mas como um interlocutor ativo, onde passado e presente se cruzam numa relação de continuidade e de reinterpretação. A partir deste ponto, a bienal estende-se a vários locais da cidade, reforçando Coimbra como território de criação, circulação e partilha cultural.
Entre os espaços municipais que acolhem a programação destacam-se o Edifício Chiado, a Sala da Cidade e o Convento São Francisco, sublinhando o envolvimento da autarquia neste projeto âncora para Coimbra e para a Região.
Nan Goldin na Sala da Cidade
Na Sala da Cidade, é apresentada a obra “Stendhal Syndrome” (2024), de Nan Goldin, uma peça de imagem em movimento com cerca de 25 minutos, com banda sonora original do Soundwalk Collective. Neste trabalho, a artista estabelece um diálogo entre as suas fotografias de obras da Antiguidade Clássica, do Renascimento e do Barroco e os seus retratos íntimos de amigos e de amantes, cruzando o universo museológico com uma estética crua e confessional. A partir da ideia de uma resposta emocional intensa perante a beleza — conhecida como Síndrome de Stendhal —, a obra propõe uma reflexão sobre o poder do olhar e sobre temas universais como o amor e a perda. Patente de terça-feira a domingo, das 13h00 às 18h00, a exposição encerra à segunda-feira e aos feriados.
Maria Trabulo no Convento São Francisco
No Convento São Francisco, a Sala do Capítulo acolhe a instalação sonora e escultórica “se estas pedras falassem” (2026), de Maria Trabulo, uma obra que parte dos ecos do espólio do Museu de Raqqa, na Síria, destruído e pilhado durante a guerra entre 2013 e 2017. Através de uma abordagem interdisciplinar, a artista explora a fragilidade e a invisibilidade da memória, materializando-a num conjunto de “guardiões da memória”, como lhes chama, que evocam a perda, a ausência e a tentativa de reconstrução de um passado fragmentado. Cruzando práticas artísticas com metodologias de conservação e de restauro, o trabalho propõe uma reflexão sobre os processos de destruição e de preservação do património em contextos de conflito, evidenciando como o tempo e a violência podem fragmentar a memória coletiva, mas também como a arte pode funcionar como espaço de restituição, encontro e resistência. A exposição pode ser visitada todos os dias, das 15h00 às 20h00 (última entrada às 19h30).
Edifício Chiado com obras de vários artistas
Por sua vez, no Edifício Chiado, a bienal reúne obras de vários artistas: Frédéric Bruly Bouabré, Sandro Chia, Colectivo SEM-FIM, Eva Davidova, Mário Macilau, Adriana Molder e João Salema. Através de linguagens como o desenho, a pintura, a fotografia e o vídeo, as obras exploram a materialidade e a expressividade dos atos de segurar, dar e receber, convocando uma reflexão sobre relações de cuidado, interdependência e escuta. Patente de terça a sexta-feira, das 10h00 às 18h00, e aos fins de semana entre as 10h00 e as 13h00 e das 14h00 às 18h00, a exposição encerra à segunda-feira e aos feriados.
Relação ativa, ética e emocional
Inspirada na noção de apoio mútuo, a bienal valoriza princípios como a colaboração, a interdependência e a horizontalidade, afirmando-se como um espaço onde se cruzam diferentes perspetivas e narrativas. Através de obras que abordam temas como memória, testemunho, luto, extração e resistência, o Anozero’26 convida o público a uma relação ativa, ética e emocional com os conteúdos apresentados.
Mais do que um legado material, esta edição pretende deixar uma marca ao nível da experiência e da perceção, promovendo novas formas de atenção, escuta e imaginação. Com entrada livre, o Anozero — Bienal de Coimbra reafirma-se como um projeto de referência no panorama artístico contemporâneo, consolidando o posicionamento de Coimbra como cidade de cultura e criação.
Toda a informação está disponível em www.anozero26bienaldecoimbra.pt