“Acabámos de celebrar a escritura de aquisição do prédio na rua Visconde da Luz, onde foi encontrado um achado importantíssimo para a nossa civilização: o prédio onde funcionou de forma muito discreta, quase secreta, a sala de banhos de rituais judaicos, mikveh. E para desenvolvermos esse projeto, decidimos adquiri-lo”, afirmou Manuel Machado, durante a assinatura de um protocolo para a instalação de um parque de carregamento de veículos elétricos, explicando que o facto de serem “muitos proprietários e herdeiros” fez com que o processo de aquisição do imóvel fosse mais moroso.
“Esta componente está ainda dentro da antiga judiaria e o testemunho que foi encontrado, em pedra e água, a localização e a estética, são relevantes para estimular o empreendimento de um projeto, que tem alguma espiritualidade naturalmente, que faz parte da história e da vida da nossa cidade”, acrescentou ainda Manuel Machado, concluindo: “Daí a aquisição do imóvel e agora os nossos arquitetos e engenheiros vão fazer a abordagem e os estudos necessários para uma mostra pública, para que o mikveh seja visitável”.
Os documentos existentes sobre a comunidade judaica em Coimbra remontam à Idade Média e sabe-se que a rua de Visconde da Luz, antes apelidada de Coruche, era um dos limites da chamada judiaria velha, que terá sido desativada no reinado de D. Fernando I, por volta de 1370. A estrutura encontra-se, precisamente, na área da judiaria velha e corresponde às descrições dos banhos rituais judaicos da época. Pensa-se mesmo que pode ser um dos mais antigos banhos rituais judaicos descobertos na Europa e que se destinava a banhos rituais femininos, o que é ainda mais raro. Trata-se, pois, de uma estrutura de enorme relevância para o conhecimento da presença de comunidades judaicas em Coimbra.
“Num espaço curto da Visconde da Luz há a igreja católica, a Igreja de Santa Cruz, o mikveh e terá existido ali a sinagoga e tem logo a seguir a Almedina, portanto é mais do que evidente que a geografia indica que Coimbra é uma terra muito especial. Há poucas cidades no Mundo que têm referenciais que comprovam que em Coimbra, a convivialidade de culturas, de religiões, o respeito pelos que são diferentes e não têm as mesmas crenças, sempre existiu e essa é uma caraterística da nossa cidade”, acrescentou ainda o presidente da CM Coimbra.
A escritura foi assinada, hoje, na Sala de Despacho Privado da autarquia, e o edifício foi adquirido pelo valor de 240 mil euros.