Skip to main content
Coimbra heraldic loading icon
Saltar para o conteúdo principal

10 Agosto 2026

Artigo de opinião de Ana Abrunhosa e Miguel Antunes no Expresso | Coimbra não pediu um lugar no espaço. Construiu-o

Artigo de opinião de Ana Abrunhosa e Miguel Antunes no Expresso | Coimbra não pediu um lugar no espaço. Construiu-o

Durante gerações, Coimbra formou engenheiros que deixavam a cidade no dia em que recebiam o diploma. Em setembro abre a licenciatura em Engenharia Aeroespacial na Universidade de Coimbra.

Em 1998, uma empresa nascida em Coimbra vendeu software à NASA. Chamava-se Critical Software, tinha meia dúzia de engenheiros e um escritório emprestado. Ninguém escreveu que era o princípio de algo. Vinte e oito anos depois, o setor espacial da nossa região fatura 25 milhões de euros, emprega 350 profissionais qualificados, mantém mais de 100 projetos de investigação ativos, participa em nove missões espaciais internacionais e soma mais de 100 parcerias internacionais.
 
Não é uma promessa, são factos. Este património cresceu sem que ninguém o tratasse como um todo: empresas de referência, uma universidade de excelência e um centro de inovação com incubação da Agência Espacial Europeia (ESA). Nunca faltou competência. O que faltava era coordenação, escala e uma estratégia comum. A 29 de junho, no Convento de São Francisco, onze entidades assinaram o memorando de entendimento que criou a “Coimbra Supernova”.

Na astrofísica, uma supernova é a explosão colossal de uma estrela que liberta uma quantidade formidável de energia e espalha pelo universo os elementos essenciais para a formação de novos corpos celestes. É precisamente essa a ambição deste ecossistema: catalisar o talento e a tecnologia da região numa explosão de inovação e valor, capaz de dar origem a novas empresas, empregos e soluções globais.

Este memorando é o compromisso dos vários atores com atividade ligada ao espaço para trabalharem em articulação, com um objetivo claro: duplicar o cluster até 2030, atingindo 50 milhões de euros de faturação e 750 profissionais qualificados. Esta construção coletiva assenta em pilares bem definidos. Por um lado, o papel mediador e facilitador da Câmara Municipal de Coimbra, que se assume como o motor de articulação territorial ao criar as condições institucionais, regulatórias e de infraestrutura necessárias para atrair investimento, aproximar atores e dar escala ao ecossistema. Por outro, a excelência da Universidade de Coimbra, fonte primária de conhecimento científico, investigação avançada e formação de talento altamente qualificado, garantindo a base técnica para a inovação contínua.

A este eixo junta-se a capacidade de incubação e transferência tecnológica do Instituto Pedro Nunes (IPN), que, através do seu centro de inovação e da incubadora ESA BIC Portugal, faz a ponte crítica entre a ciência e o mercado, transformando investigação em startups viáveis e em tecnologia comercializável.

Estes números e sinergias importam pelo que representam fora das folhas de cálculo. Portugal arde todos os verões. A Spotlite utiliza dados de satélite para vigiar a vegetação e infraestruturas críticas antes de os incêndios começarem. A Neuraspace evita colisões numa órbita cada vez mais congestionada. A Open Cosmos constrói e opera satélites. A Active Space Technologies desenvolve os sistemas que os mantêm operacionais nas condições extremas do espaço.

O espaço deixou de ser um lugar distante. É hoje infraestrutura crítica para a proteção civil, a agricultura, a segurança e a gestão do território, representando também uma oportunidade económica decisiva. Cada empresa que cresce, cada engenheiro que aqui fica e cada novo investimento geram emprego qualificado, fortalecem a economia local e ajudam a fixar talento. É assim que uma aposta tecnológica se transforma em desenvolvimento para toda a região. Esta competência é reconhecida por quem decide investir.

No início deste ano, a Airbus e a Critical Software instalaram em Taveiro a Critical FlyTech, uma joint venture que arrancou com 120 engenheiros e projeta 300 em 2028. Um construtor aeronáutico europeu desta dimensão podia ter escolhido qualquer cidade do continente, mas escolheu Coimbra. Seria errado reivindicar essa decisão como mérito exclusivo da Câmara Municipal, contudo seria igualmente errado ignorar o papel facilitador da cidade na criação de um ambiente favorável para atrair investimento e talento.

Há ainda uma razão crucial no centro deste ecossistema. Durante gerações, Coimbra formou engenheiros que deixavam a cidade no dia em que recebiam o diploma. Em setembro abre a licenciatura em Engenharia Aeroespacial na Universidade de Coimbra. Em julho, a Critical FlyTech assinou com a Faculdade de Ciências e Tecnologia um protocolo de três anos: os seus engenheiros darão aulas no curso e os finalistas estagiarão em Taveiro. Um estudante que entre este ano poderá fazer o curso, o estágio e iniciar a carreira sem mudar de código postal. Numa região que durante décadas exportou talento, isto representa uma verdadeira mudança de paradigma.

Ambição sem método é ruído. A aliança reúne mensalmente, prepara um plano comum e define os critérios de adesão de novos membros. Não assinámos uma declaração de intenções; construímos uma estrutura de trabalho. Os próximos passos já estão definidos: em outubro, Coimbra recebe a GLEX Ignition, encontro internacional de exploração espacial que chega de Otava, estando igualmente previstas missões económicas a Toulouse, Barcelona, Bremen, Sevilha e Delft.

A Europa está a decidir onde constrói a sua autonomia espacial. Essa decisão não se toma apenas em Bruxelas, mas nos territórios que, com a liderança e mediação das suas instituições locais, conseguem alinhar empresas, ciência e ambição. Portugal terá de escolher onde concentra essa aposta. Coimbra não está a pedir um lugar na economia espacial europeia: está a construí-lo.

 
Publicado na edição online de 10/08/2026 do Expresso
Câmara Municipal de Coimbra logo

Câmara Municipal de Coimbra

Praça 8 de Maio - 3000-300, Coimbra
geral@cm-coimbra.pt
239 857 500 (chamada para a rede fixa nacional)