A tese seria nobre, não fosse frontalmente desmentida pela prática de quem liderou este pelouro durante anos. Falar em “construção participada” e criticar as decisões atuais exige uma amnésia conveniente sobre o passado recente. Quando a anterior governação decidiu cortar a circulação viária na margem direita do rio Mondego, onde estiveram as reuniões com os interessados e a quem foi perguntado o impacto da medida? A decisão foi remetida para Reunião de Câmara e, posteriormente, a consulta pública, sem diálogo prévio com os diretamente afetados. Recordo que a medida gerou forte contestação e alertas sobre o sobrecarregamento da Avenida Fernão de Magalhães. Hoje, a cidade vive melhor com essa opção e muitos já nem se recordam de terem estado contra. A coerência constrói-se no rigor das escolhas e na transparência do debate, e não na retórica de ocasião.
A acrescer a esta incoerência, o modelo de mobilidade rodoviária herdado para a Avenida D. Sesnando, previa a circulação de automóveis no sentido ascendente, partilhando a mesma via com os autocarros dos SMTUC e situando-se entre as duas vias do Metrobus. É difícil compreender como o executivo anterior considerou viável manter uma faixa rodoviária no canal onde carros e autocarros cruzariam as vias do Metrobus no nó da Rua da Sofia, com Rua Olímpio Nicolau Fernandes, criando um ponto crítico de estrangulamento com a semaforização no cruzamento referido, que dá prioridade ao Metrobus, o que paralisaria a Avenida Fernão de Magalhães. Não corrigir este erro a tempo não foi “construção conjunta”, mas sim falta de coragem política para tomar a decisão inevitável de retirar o trânsito automóvel do canal por razões de segurança e salvaguarda do transporte público.
Paralelamente, gera enorme estranheza a falta de esclarecimento sobre a impossibilidade técnica de manter a circulação de veículos particulares na Rua da Sofia. Após anos de obras sob a liderança do anterior executivo, chegamos a 2026 com a população em geral, e em particular os comerciantes e moradores da Rua da Sofia, a desconhecerem que a circulação num só sentido e dedicada ao transporte público constitui, desde 2011, uma condição aprovada para a concretização do Metrobus. Os comerciantes, aparentemente apanhados de surpresa, e depois de várias reuniões com este executivo e com as equipas técnicas, tiveram de procurar a ex-vereadora para obter explicações que deveriam ter sido prestadas ao longo do mandato, demonstrando um défice de informação que contradiz o argumento de “construção dialogada”.
O novo modelo de mobilidade traz vantagens estruturais inquestionáveis. A transição para o Metrobus elétrico, o reforço dos SMTUC e a acalmia do tráfego reduzem a poluição, promovem a descarbonização, garantem tempos de viagem seguros e devolvem a qualidade de vida ao espaço urbano. Devolvemos a Baixa às pessoas através de regras transparentes. E as pessoas podem continuar a estacionar na Baixa nos locais habituais. A nova Rua da Sofia, transformada da noite para o dia, pretende ser um espaço de vivência e comércio, com maior amplitude para esplanadas, segurança para peões e uma zona acalmada a 30 km/h, mantendo os acessos assegurados para moradores, cargas e descargas e outras situações que se justifiquem.
Governar exige a coragem de decidir com transparência, executando as transformações que a cidade aguarda há décadas para garantir um transporte público eficiente e espaço público de excelência para todos os conimbricenses.
Publicado na edição de 16/09/2026 do Diário de Coimbra