A intervenção na Casa das Talhas permitiu criar quatro habitações duplex, três T3 e uma T2, nos pisos superiores do edifício. Três dessas habitações passam agora a ser ocupadas no âmbito do arrendamento acessível, devolvendo uma função habitacional a este imóvel histórico.
Na sessão, Ana Abrunhosa destacou precisamente essa ligação entre a recuperação do património e a sua utilização pelas pessoas, sublinhando que a Casa das Talhas “passa também a ter novas histórias para contar” e que preservar um edifício histórico passa igualmente por permitir que continue a fazer parte da vida da cidade.
Para a presidente, a entrega das habitações concretiza uma intervenção que conjuga três objetivos: “recuperar património, criar habitação e devolver este espaço à vida da cidade”.
Edifício com vários séculos de história
A Casa das Talhas integra o núcleo urbano antigo de Coimbra e encontra-se parcialmente implantada sobre a muralha medieval. O imóvel incorpora estruturas da antiga Cerca de Coimbra, designadamente troços de muralha e de uma torre classificados como Monumento Nacional, encontrando-se ainda abrangido pelas zonas de proteção de vários bens patrimoniais, entre os quais a Universidade de Coimbra – Alta e Sofia, classificada como Património Mundial da UNESCO.
A estrutura arquitetónica do atual edifício terá sido construída provavelmente no século XVII, cronologia sustentada pelos elementos azulejares existentes e pela inscrição da data de 1652 numa das talhas. O imóvel conserva, contudo, testemunhos de diferentes períodos históricos, incluindo vestígios de ocupação manuelina, uma torre de provável cronologia pré-islâmica, estruturas da Cerca Medieval e um tanque ou reservatório de água de origem romana.
Intervenção conciliou património e novas funções
A relevância patrimonial da Casa das Talhas determinou cuidados específicos desde a preparação do projeto. Foram realizadas sondagens arqueológicas prévias e elaborado um estudo histórico-artístico, que serviram de suporte ao desenvolvimento da intervenção. A madeira foi assumida como um dos principais materiais estruturais dos pisos e escadas, em coerência com as técnicas construtivas tradicionais, e nos pisos inferiores privilegiou-se a preservação e valorização dos elementos de maior relevância histórica e arqueológica.
Nas habitações, a organização dos espaços foi condicionada pela preservação das paredes-mestras e pelo número reduzido de aberturas existentes. A configuração dos apartamentos foi definida a partir da compartimentação preexistente e dos vãos exteriores, assegurando simultaneamente condições de iluminação e ventilação naturais. Para esse efeito foram também introduzidas soluções através da cobertura e de lanternins (janelas que se estendem do teto ou telhado, projetadas para maximizar a luz natural).
Um dos exemplos da compatibilização entre preservação e adaptação encontra-se na antiga escada de madeira existente no lado sul do imóvel. O seu avançado estado de degradação inviabilizou a manutenção da estrutura, mas o lanternim que a encimava foi restaurado e conservado na posição original, tendo sido construída sob esse elemento uma nova escada de acesso a um dos apartamentos duplex. Também a cobertura foi intervencionada, mantendo-se a sua geometria e reintroduzindo-se a telha cerâmica.
Nos interiores das habitações foram utilizados materiais que procuram preservar a memória e a ambiência histórica do edifício, como soalhos de pinho, mosaicos hidráulicos nas cozinhas e instalações sanitárias, tetos maioritariamente revestidos a madeira pintada, portas em madeira maciça e rodapés tradicionais. A intervenção integrou, em simultâneo, soluções contemporâneas de isolamento térmico e acústico e as infraestruturas necessárias às atuais condições de conforto.
Habitação, comércio e valorização do património
O programa de reabilitação da Casa das Talhas integra diferentes utilizações. Para além das quatro habitações nos pisos superiores, está previsto um estabelecimento de restauração e bebidas no piso térreo e uma galeria/espaço museológico que ocupa também a cave e a subcave.
Nos pisos inferiores, onde se concentram alguns dos elementos de maior relevância arqueológica, foram mantidos troços de paredes de pedra com o aparelho à vista e utilizadas soluções destinadas a facilitar o percurso de visita e a leitura do conjunto histórico.
A empreitada principal de reconstrução e construção da Casa das Talhas decorreu entre 2022 e 2025, com um valor de cerca de 1,76 M€. Considerando empreitadas, projetos, serviços, fiscalização, arqueologia e trabalhos de conservação e restauro, a ficha técnica aponta para um investimento global estimado de cerca de 2,11 M€.
Na sessão, Ana Abrunhosa destacou ainda o caráter continuado do projeto, deixando uma palavra de reconhecimento aos anteriores executivos municipais, aos serviços, técnicos, projetistas e equipas que participaram nas diferentes fases da intervenção.