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9 Outubro 2026

Casa das Talhas recebe novos moradores após reabilitação de edifício histórico da Baixa de Coimbra

A Câmara Municipal de Coimbra assinou hoje, 9 de outubro, os contratos de arrendamento acessível de três das quatro habitações criadas nos pisos superiores da Casa das Talhas, na Rua Fernandes Tomás. A sessão pública, presidida pela Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, assinalou a entrada de novos moradores num edifício histórico da Baixa, recuperado através de uma intervenção que conciliou a salvaguarda do património com a criação de novas condições de habitação no centro da cidade.

 

A intervenção na Casa das Talhas permitiu criar quatro habitações duplex, três T3 e uma T2, nos pisos superiores do edifício. Três dessas habitações passam agora a ser ocupadas no âmbito do arrendamento acessível, devolvendo uma função habitacional a este imóvel histórico.

 

Na sessão, Ana Abrunhosa destacou precisamente essa ligação entre a recuperação do património e a sua utilização pelas pessoas, sublinhando que a Casa das Talhas “passa também a ter novas histórias para contar” e que preservar um edifício histórico passa igualmente por permitir que continue a fazer parte da vida da cidade.

 

Para a presidente, a entrega das habitações concretiza uma intervenção que conjuga três objetivos: “recuperar património, criar habitação e devolver este espaço à vida da cidade”.

 

Edifício com vários séculos de história

A Casa das Talhas integra o núcleo urbano antigo de Coimbra e encontra-se parcialmente implantada sobre a muralha medieval. O imóvel incorpora estruturas da antiga Cerca de Coimbra, designadamente troços de muralha e de uma torre classificados como Monumento Nacional, encontrando-se ainda abrangido pelas zonas de proteção de vários bens patrimoniais, entre os quais a Universidade de Coimbra – Alta e Sofia, classificada como Património Mundial da UNESCO.

 

A estrutura arquitetónica do atual edifício terá sido construída provavelmente no século XVII, cronologia sustentada pelos elementos azulejares existentes e pela inscrição da data de 1652 numa das talhas. O imóvel conserva, contudo, testemunhos de diferentes períodos históricos, incluindo vestígios de ocupação manuelina, uma torre de provável cronologia pré-islâmica, estruturas da Cerca Medieval e um tanque ou reservatório de água de origem romana.

 

Intervenção conciliou património e novas funções

A relevância patrimonial da Casa das Talhas determinou cuidados específicos desde a preparação do projeto. Foram realizadas sondagens arqueológicas prévias e elaborado um estudo histórico-artístico, que serviram de suporte ao desenvolvimento da intervenção. A madeira foi assumida como um dos principais materiais estruturais dos pisos e escadas, em coerência com as técnicas construtivas tradicionais, e nos pisos inferiores privilegiou-se a preservação e valorização dos elementos de maior relevância histórica e arqueológica.

 

Nas habitações, a organização dos espaços foi condicionada pela preservação das paredes-mestras e pelo número reduzido de aberturas existentes. A configuração dos apartamentos foi definida a partir da compartimentação preexistente e dos vãos exteriores, assegurando simultaneamente condições de iluminação e ventilação naturais. Para esse efeito foram também introduzidas soluções através da cobertura e de lanternins (janelas que se estendem do teto ou telhado, projetadas para maximizar a luz natural).

 

Um dos exemplos da compatibilização entre preservação e adaptação encontra-se na antiga escada de madeira existente no lado sul do imóvel. O seu avançado estado de degradação inviabilizou a manutenção da estrutura, mas o lanternim que a encimava foi restaurado e conservado na posição original, tendo sido construída sob esse elemento uma nova escada de acesso a um dos apartamentos duplex. Também a cobertura foi intervencionada, mantendo-se a sua geometria e reintroduzindo-se a telha cerâmica.

 

Nos interiores das habitações foram utilizados materiais que procuram preservar a memória e a ambiência histórica do edifício, como soalhos de pinho, mosaicos hidráulicos nas cozinhas e instalações sanitárias, tetos maioritariamente revestidos a madeira pintada, portas em madeira maciça e rodapés tradicionais. A intervenção integrou, em simultâneo, soluções contemporâneas de isolamento térmico e acústico e as infraestruturas necessárias às atuais condições de conforto.

 

Habitação, comércio e valorização do património

O programa de reabilitação da Casa das Talhas integra diferentes utilizações. Para além das quatro habitações nos pisos superiores, está previsto um estabelecimento de restauração e bebidas no piso térreo e uma galeria/espaço museológico que ocupa também a cave e a subcave.

 

Nos pisos inferiores, onde se concentram alguns dos elementos de maior relevância arqueológica, foram mantidos troços de paredes de pedra com o aparelho à vista e utilizadas soluções destinadas a facilitar o percurso de visita e a leitura do conjunto histórico.

 

A empreitada principal de reconstrução e construção da Casa das Talhas decorreu entre 2022 e 2025, com um valor de cerca de 1,76 M€. Considerando empreitadas, projetos, serviços, fiscalização, arqueologia e trabalhos de conservação e restauro, a ficha técnica aponta para um investimento global estimado de cerca de 2,11 M€.

 

Na sessão, Ana Abrunhosa destacou ainda o caráter continuado do projeto, deixando uma palavra de reconhecimento aos anteriores executivos municipais, aos serviços, técnicos, projetistas e equipas que participaram nas diferentes fases da intervenção.

 

 

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