A nova Praça Europa nasce num dos principais pontos de entrada da cidade de Coimbra, que será servido pelo Metrobus, assumindo-se como um espaço de encontro entre mobilidade, cultura e identidade europeia.
A instalação das Paliçadas, obra de 1976 que representa simbolicamente “cem metros da vida de Bruxelas”, reforça essa vocação, evocando uma Europa que une os seus povos através da arte, da história e da cultura.
Ao longo dos séculos, Coimbra afirmou-se como uma cidade profundamente ligada à construção da identidade europeia, através da Universidade, da ciência, das artes, da vida social, política e religiosa e das inúmeras personalidades que por aqui passaram.
A Praça Europa pretende afirmar essa herança e projetá-la para o futuro, tornando-se uma plataforma de ligação da cidade e da região ao resto do país e ao mundo. Diariamente, este espaço será atravessado por milhares de passageiros dos vários serviços de transporte.
Uma obra pioneira de arte urbana
As Paliçadas de Paul de Gobert constituem uma das mais marcantes experiências de arte urbana da Bélgica.
Entre 1975 e 1976, durante a construção da nova sede do banco belga Crédit Communal (posteriormente Dexia), a instituição decidiu transformar as paliçadas de madeira que delimitavam o estaleiro numa verdadeira obra de arte pública. Com preocupações urbanísticas e culturais, encomendou ao então jovem artista Paul de Gobert a pintura dos painéis, reduzindo assim o impacto visual das obras.
O resultado foi um projeto pioneiro de Street Art que rapidamente conquistou reconhecimento artístico e mediático. Face ao seu sucesso, o banco preservou todos os painéis, que foram posteriormente e restaurados e apresentados em diversas exposições.
Ao longo de cerca de cem metros de pintura, Paul de Gobert retratou a Bruxelas dos anos 70 com um realismo enriquecido pela técnica do trompe-l’œil. Nas obras figuram celebridades belgas, operários, transeuntes, cenas do quotidiano, monumentos e espaços emblemáticos da cidade, criando um retrato vivo da sociedade belga da época.
Entre as personalidades representadas encontram-se o Rei Balduíno, a Rainha Fabiola, o ciclista Eddy Merckx, trabalhadores do jornal Le Soir, figuras populares e diversos edifícios de Bruxelas. O conjunto é ainda marcado pelo humor subtil do artista, visível em cenas como um polícia a multar o Manneken Pis ou no autorretrato de Paul de Gobert a pedalar ao lado de Eddy Merckx.
Em 2005, já sob a designação Dexia, parte das Paliçadas foi restaurada pelo próprio artista para integrar a exposição “D’une Banque à l’autre, 145 ans de notre Histoire“. Posteriormente, os painéis foram exibidos em vários espaços, incluindo o emblemático complexo Tour & Taxis, em Bruxelas, sendo igualmente objeto de diversas publicações.
As Paliçadas chegam a Coimbra
Em 2026, precisamente cinquenta anos após a sua criação, a Metro Mondego e a Câmara Municipal de Coimbra decidiram devolver estas obras ao espaço público, após um cuidadoso processo de restauro realizado com a colaboração da conservadora-restauradora Paula Margarida Cavaleiro e do próprio artista.
A sua instalação permanente na Praça Europa representa um novo capítulo na história desta obra, permitindo que residentes e visitantes possam contactar diariamente com um dos mais relevantes exemplos europeus de arte urbana do século XX.
Sobre Paul de Gobert
Nascido em Bruxelas, em 1949, Paul de Gobert é pintor, muralista, aguarelista e gravador. Tornou-se conhecido pelas suas intervenções artísticas em edifícios públicos e privados de Bruxelas, destacando-se os murais das escolas Calvoet e Saint-Job, da estação de metro Vandervelde, do bairro Les Marolles e das históricas Paliçadas do Crédit Communal.
Desenvolveu igualmente diversos projetos em Paris, nomeadamente no Hospital Tenon, na agência Roux-Séguéla e na Escola Elementar de Ménilmontant.
Viajante incansável, transporta para a sua obra as experiências recolhidas em regiões tão diversas como o deserto do Saara, as planícies da Mongólia, as cidades da Jordânia, as florestas do Ruanda, os arredores de Bruxelas e Namur, Portugal e muitos outros destinos. O seu trabalho, apresentado em exposições e publicações, revela uma atenção permanente à vida urbana e uma profunda paixão pela natureza e pelas causas ecológicas.