Na abertura das Jornadas, Ana Abrunhosa começou por colocar a longevidade como uma conquista, mas também como um desafio que ultrapassa largamente as políticas sociais ou de saúde. “Vivemos mais. Felizmente. Essa é uma das grandes conquistas das sociedades modernas”, afirmou, antes de lançar a questão que orientou a sua intervenção: “como queremos viver esses anos?”.
Para a presidente da Câmara, preparar Coimbra para uma população que vive mais implica pensar a cidade de forma integrada. Habitação, transportes, cuidados, espaço público, cultura, desporto e relações de proximidade fazem parte da mesma resposta, porque o objetivo deve ser permitir que cada pessoa continue a decidir sobre a sua vida, a participar e, sempre que possível, a permanecer no seu bairro e na sua comunidade.
Conhecer antes de ser preciso responder à emergência
A primeira prioridade apontada por Ana Abrunhosa foi a proximidade. A presidente defendeu que as respostas públicas não podem surgir apenas quando uma situação de isolamento ou perda de autonomia já se tornou crítica.
“Não podemos conhecer uma pessoa apenas quando surge uma emergência”, afirmou, sublinhando a importância de identificar precocemente quem vive sozinho, quem começa a perder autonomia ou quem deixa de frequentar os espaços e relações que faziam parte da sua rotina.
Este trabalho exige, segundo Ana Abrunhosa, uma rede que envolva Município, freguesias, serviços de saúde, instituições, forças de segurança e quem conhece de perto cada rua e cada bairro. Em Coimbra, a presidente destacou, entre outros exemplos, o programa Voz Amiga e o trabalho desenvolvido diariamente pelas equipas municipais.
Mais alternativas para envelhecer com autonomia
A autonomia foi a segunda dimensão destacada. Ana Abrunhosa defendeu que entre permanecer sozinho numa habitação sem condições e entrar numa estrutura residencial têm de existir mais soluções.
A aposta deve passar por mais habitação adaptada, apoio domiciliário, teleassistência e outras respostas que permitam prolongar uma vida independente e manter as pessoas junto das suas relações e comunidades. As estruturas residenciais continuam a ser indispensáveis, mas não devem constituir automaticamente a única resposta disponível.
O terceiro eixo passa pelo trabalho em rede. “Podemos ter excelentes profissionais e excelentes instituições e, ainda assim, falhar se cada um conhecer apenas uma parte do problema”, salientou a presidente. A Comissão Municipal de Proteção à Pessoa Idosa foi apresentada como exemplo de uma resposta partilhada entre Município, saúde, instituições e forças de segurança.
Ana Abrunhosa destacou ainda a participação de Coimbra no projeto europeu TRUST, através do qual o Município procura conhecer e testar novas respostas, incluindo formas de colocar a tecnologia ao serviço dos cuidados e dos profissionais.
Ouvir as pessoas mais velhas e adaptar a cidade
A quarta prioridade passa pela participação. Para Ana Abrunhosa, as pessoas mais velhas não devem ser encaradas apenas como destinatárias de políticas públicas, mas como cidadãos com experiência, conhecimento e capacidade para participar nas decisões sobre a cidade.
Projetos como Vida Ativa e Pedalar Sem Idade foram referidos como exemplos de iniciativas que promovem convívio e participação, mas a presidente defendeu a necessidade de ir mais longe e incorporar a experiência da população mais velha na própria forma de pensar e desenhar Coimbra.
O quinto eixo é o espaço público. Passeios difíceis de percorrer, ausência de bancos, passadeiras inseguras ou transportes inacessíveis podem transformar-se, para muitas pessoas, numa barreira entre continuar a viver a cidade ou permanecer em casa. “Uma cidade preparada para envelhecer é uma cidade melhor para todos nós”, afirmou Ana Abrunhosa, lembrando que um espaço público mais acessível beneficia não apenas as pessoas mais velhas, mas também quem tem mobilidade reduzida, quem circula com crianças e, em última análise, toda a população.
ULS de Coimbra reforça aposta na prevenção e proximidade
A abertura das Jornadas contou também com a participação do presidente da Unidade Local de Saúde de Coimbra, Francisco Maio Matos, que reforçou a necessidade de uma mudança de paradigma nos cuidados à população mais velha. “A longevidade é uma extraordinária conquista da nossa sociedade; não um problema”, afirmou, defendendo que os anos adicionais de vida devem ser vividos com saúde, autonomia, dignidade, participação e ligação à comunidade.
Neste contexto, a ULS de Coimbra está a avançar com o Programa Integrado para a Saúde da Pessoa Idosa Institucionalizada, dirigido a mais de cinco mil residentes em estruturas da sua área de influência, procurando identificar precocemente situações de deterioração clínica e reduzir deslocações e internamentos evitáveis. A abordagem passa também por uma lógica de “geriatria de proximidade”, articulada com cuidados de saúde primários, teleconsulta, consultoria clínica e acompanhamento.
A presença conjunta do Município e da ULS na abertura das Jornadas evidenciou precisamente uma das ideias centrais defendidas ao longo do dia: saúde, ação social, cuidados domiciliários, respostas comunitárias e políticas municipais não podem funcionar como realidades separadas quando o objetivo é responder de forma preventiva e integrada ao envelhecimento.
As Jornadas integraram a Semana do Envelhecimento Ativo, Saudável e Participativo 2026 e tiveram como objetivo promover a partilha de conhecimento e de respostas entre diferentes instituições e profissionais.
Na abertura, Ana Abrunhosa sintetizou o desafio colocado às políticas públicas: “Não podemos começar a pensar no envelhecimento apenas quando chega a dependência. Temos de começar antes. Na prevenção. Na autonomia. Na participação. Na proximidade. E na forma como desenhamos as nossas cidades”, concluiu.