Nesse sentido, importa esclarecer as críticas recorrentes em torno das cerimónias públicas de entrega de chaves. Argumenta-se, por vezes, que estes momentos expõem e fragilizam as famílias. Importa responder com clareza: estamos a assinalar conquistas sociais profundas. A esmagadora maioria recusa entrar na sua nova vida pela porta dos fundos, envergonhada. Estas iniciativas devolvem visibilidade e orgulho a quem tantas vezes foi remetido para a margem, decorrendo em regime de estrita adesão voluntária de quem faz questão de celebrar publicamente a sua vitória. São momentos simbólicos, preparados com cuidado e revestidos de grande proximidade.
Governar com responsabilidade exige, porém, confrontar a realidade sem lírios. Quando referi recentemente que algumas habitações sociais registaram danos substanciais poucos meses após a entrega, certos setores apressaram-se a classificar a constatação como punitiva. Nada mais distante da verdade. Assumir estes episódios não estigmatiza ninguém; é um imperativo de rigor na gestão da coisa pública e o ponto de partida para intervir com eficácia.
O património habitacional social pertence à comunidade, edificado com o esforço e os impostos de todos. Exigir o cumprimento das regras de convivência e a sua preservação não fragiliza os moradores: dignifica-os. Tratá-los como cidadãos de pleno direito exige atribuir-lhes direitos e deveres em igual medida. Fingir que a degradação não existe seria incorrer num paternalismo velado, a forma mais subtil de remeter populações vulneráveis para uma cidadania de segunda categoria, de quem nada se espera e a quem nada se exige.
A entrega da chave não é a meta de uma política social, mas sim o seu começo. Atribuir uma casa a quem traz o peso de anos de desestruturação familiar, problemas de saúde mental ou dependências não apaga, por si só, carências acumuladas. Se o acompanhamento terminar na porta do edifício, o insucesso do realojamento torna-se praticamente inevitável.
Torna-se igualmente paradoxal ver quem rejeita a exigência de regras na habitação pública advogar o «respeito pela opção» de quem vive na rua. Tratar a exclusão severa como escolha individual desresponsabiliza o coletivo; não existe liberdade de escolha onde faltam os mínimos de dignidade e autonomia.
Não desistir das pessoas implica recusar o conforto dos julgamentos abstratos. A verdadeira ação autárquica faz-se no terreno, todos os dias, com equipas multidisciplinares focadas na mediação comunitária, no apoio psicossocial e na capacitação contínua. Exige gerir a complexidade com honestidade: aliando a firmeza na defesa do bem comum à empatia indispensável a uma sociedade verdadeiramente solidária.
Publicado na edição de 05/10/2026 do Diário de Coimbra