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9 Junho 2026

Artigo de opinião de Ana Abrunhosa | “As Cidades fazem-se de Conversas”

Artigo de opinião de Ana Abrunhosa | “As Cidades fazem-se de Conversas”

Uma cidade onde as pessoas se cruzam é uma cidade onde as ideias se cruzam. E onde as ideias se cruzam, nascem projetos, negócios, cultura colaborativa. Estes encontros não são acaso: dependem de um desenho urbano que junte, em vez de afastar. A economia urbana confirma-o.

O que gera riqueza não é só o hardware: instituições fortes, empresas competitivas. É, cada vez mais, a facilidade com que se relacionam e a naturalidade com que as pessoas trocam conhecimento no dia-a-dia. Por isso as cidades vivas, de ruas cheias e usos misturados, criam mais. Uma cidade que se despovoa ao fim da tarde não perde só vizinhos: perde as conversas de onde sai a próxima empresa. Foi com isto em mente que suspendemos o Plano Diretor Municipal. Não para abrir Coimbra ao betão, mas para corrigir regras que travavam o essencial: casas para quem aqui quer viver, edifícios devolvidos à vida, ruas onde se mistura morar, trabalhar e conviver. Temos, no coração da cidade, espaço a mais a dormir e gente a menos a viver. Cada andar habitado, cada loja que reabre, é mais um pedaço de cidade onde a inovação acontece. Quem volta a viver no centro dá vida ao lugar onde outros começam um negócio. Coimbra tem uma sorte rara: uma das universidades mais antigas da Europa integrada no meio de nós, não isolada num campus. Hospitais, investigação e empresas de referência mundial em inteligência artificial, farmacêutica, software e agroalimentar. A aposta é clara: densificar a cidade onde todos estes setores se cruzam. Em semanas, daremos um passo marcante: a intervenção profunda na Rua da Sofia e a entrada do Metrobus na Avenida Sá da Bandeira. E já tivemos a melhor prova de que as pessoas querem participar e de que o futuro da cidade se faz em diálogo: a mobilização voluntária de duas centenas de pessoas, em democracia aberta, a discutir o futuro da Sofia. Fechar a Sofia ao trânsito automóvel em 2026, mantendo só o transporte público num sentido, pode parecer um transtorno mas é o oposto. Queremos devolver a rua às pessoas: alargar passeios, esplanadas, fazer acontecer mais conversas. Ao reduzir o trânsito de passagem e dar prioridade às pessoas, a Sofia deixa de ser canal de escoamento e passa a espaço de permanência. Os novos passeios densificam o fluxo pedonal, beneficiam o comércio e criam o cenário ideal para que um investigador e um empresário se sentem à mesma mesa sem terem combinado. Trazer habitação para o centro e melhorar a mobilidade são duas faces da mesma moeda. Os constrangimentos exigirão planeamento e adaptação de todos, mas é o passo indispensável para a Coimbra do futuro. A cidade que colabora não se constrói por decreto: constrói-se garantindo proximidade. É por isso que, em Coimbra, planear a cidade e pensar a economia são a mesma tarefa. Ao transformar a Rua da Sofia, não convertemos só uma via em passeio: desenhamos o palco onde as pessoas se cruzam, colaboram e fazem nascer os empregos do amanhã. É essa Coimbra que estamos a construir.

 

Publicado na edição de 9/06/2026 do Diário de Notícias

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