Durante décadas, Bordéus viveu de costas para o Garona. As margens eram armazéns degradados, estacionamento e vias rápidas. Num ciclo de transformação determinado, a cidade demoliu barreiras, criou quilómetros de frentes ribeirinhas pedonais, jardins e espelhos de água e hoje o rio é o coração cívico da cidade, motor de habitação, comércio e orgulho coletivo. A lição é clara: uma cidade que se volta para o seu rio muda de vida.
Coimbra tem no Mondego o mesmo potencial adormecido. Assumimos o compromisso de promover um crescimento voltado para a água, criando uma nova centralidade em ambas as margens: habitação e empresas inovadoras viradas para o rio, frentes ribeirinhas transformadas em fachadas dinâmicas de comércio e vida residencial, e grandes parques de lazer que consolidem o Mondego como o pulmão verde e azul da cidade, dedicado ao desporto, à cultura e às famílias conimbricenses.
Esta centralidade ribeirinha não vive isolada. Propomos corredores verdes contínuos que partam do rio e interliguem os bairros, promovam a biodiversidade e ofereçam caminhos seguros e sombreados para a mobilidade suave. O verde deixa de ser exceção pontual para se tornar a estrutura que organiza a cidade como o célebre Anel Verde de Vitoria-Gasteiz, a Capital Verde Europeia (2012) que provou que uma cidade média pode fazer da ecologia a sua vantagem competitiva.
O espaço público não pode continuar a ser apenas lugar de passagem ou de escoamento de trânsito; tem de ser o palco da nossa comunidade, do encontro e do bem-estar. Devolver a cidade a quem nela habita significa garantir que o progresso ambiental caminha de mãos dadas com a economia local: ter comércio vivo nos bairros depende de termos espaço público de qualidade que convide a estar, e não apenas a atravessar.
O Mondego não é a fronteira da cidade, é o seu centro por descobrir. Avançar Coimbra é desenhar um futuro onde o rio nos une e o verde ganha espaço ao betão. No próximo artigo, subiremos a colina: como vencer a geografia que nos desafia e devolver as ruas às pessoas. É esta a Coimbra que estamos prontos a construir convosco.
Publicado na edição de 24/07/2026 do Diário de Coimbra