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22 Junho 2026

Artigo de opinião de Ana Abrunhosa | Cultura em Coimbra como Fator de Desenvolvimento – O Papel da Manifesta

Artigo de opinião de Ana Abrunhosa | Cultura em Coimbra como Fator de Desenvolvimento – O Papel da Manifesta

A abertura da Manifesta 16 em Essen, na região do Ruhr, na Alemanha, a 20 de junho de 2026, marca o momento da passagem de testemunho para Coimbra, que acolherá a Manifesta 17 em 2028. Coimbra marcou presença nesta abertura numa missão diplomática e política da maior relevância para o posicionamento internacional da nossa cidade e da Região Centro.

A comitiva de Coimbra integrou todos os parceiros da Manifesta 17, o Município, a Universidade de Coimbra, a bienal Anozero e o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Esta frente local ganhou uma dimensão e uma força institucional extraordinárias graças ao apoio direto do Secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, que partilha connosco a visão de um projeto de Estado, e ao papel crucial da nossa Embaixadora de Portugal na Alemanha, Madalena Fischer, cuja ação diplomática abriu portas e consolidou a nossa representação ao mais alto nível. Juntos, com a Direção Geral das Artes (DGARTES), garantimos uma transição de pastas de sucesso e afirmámos uma visão estratégica que utiliza a cultura não como um evento efémero ou de nicho, mas como um dos principais motores para uma profunda reforma na nossa política de cidade.

 

O projeto que levámos na bagagem visa responder diretamente aos desafios de estagnação demográfica e perda de centralidade económica. Queremos reposicionar Coimbra e a Região Centro como polos de inovação no xadrez nacional e europeu, contrapondo nos à tradicional centralização em Lisboa e no Porto. Esta ambição territorial estende se além dos limites do Município, integrando a diversidade paisagística e a sustentabilidade ecológica da região numa proposta que concilia o desenvolvimento urbano com a valorização do mundo rural. No cerne desta visão encontra se uma forte vertente de regeneração, que rejeita liminarmente a ideia de uma cidade cristalizada na nostalgia do passado. O nosso património classificado pela UNESCO deixa de ser apenas um legado contemplativo e passa a ser um recurso vivo e vivido, um legado para o futuro.

 

O ponto alto desta afirmação foi o evento oficial de apresentação e receção que a Câmara Municipal organizou em Essen. Perante a imprensa internacional, curadores e mecenas do mundo inteiro, lançámos as bases da Manifesta 17 e destacámos o nosso plano de conversão urbana. Explicámos que a nossa prioridade passa pela reativação urgente de eixos historicamente fundamentais, mas atualmente degradados e subaproveitados, com especial destaque para a Rua da Sofia, que pretendemos transformar num espaço vibrante de fruição pública, experimentação cultural e valorização comercial, empresarial e habitacional. Tudo isto mantendo e reativando uma forte ligação funcional à Baixa, à Alta e ao Rio Mondego, bem como ao prolongamento da Baixa à margem esquerda do rio.

 

Para sustentar esta transformação, a mobilidade assumirá um papel crucial. Sob o princípio da Rapidez, reconhecemos que o desenvolvimento da cidade depende da melhoria estrutural das suas acessibilidades. Isto traduz se na necessidade de otimizar as ligações urbanas internas e de reforçar a conectividade de Coimbra com as redes nacionais e internacionais, quebrando o isolamento geográfico e facilitando o fluxo de pessoas, ideias e conhecimento.

 

Esta reconfiguração física vai refletir se diretamente na nossa comunidade. Ao abrirmos a cidade à pluralidade, através do princípio da Multiplicidade, focamo nos em elevar a autoestima e o orgulho dos cidadãos, combatendo os clichés que associam Coimbra exclusivamente ao passado. Na comunidade encontramos a nossa parceria mais estratégica, sendo os cidadãos convidados a participar ativamente na construção de uma identidade contemporânea, onde o conhecimento científico e a vivência quotidiana se cruzam.

 

Mais do que uma formalidade de passagem de testemunho, a nossa imersão na Alemanha serviu para estudarmos in loco o modelo curatorial descentralizado e de regeneração comunitária que os alemães aplicaram nas suas igrejas e espaços industriais desativados. É este o papel da Bienal, que surge como o grande catalisador desta reflexão, unindo todas as dimensões do nosso projeto. A experiência consolidada com a Anozero, desenhada desde 2015, serve de prova de conceito e demonstra como a arte contemporânea consegue resgatar o espaço público, algo que já provámos ao reabrir edifícios devolutos como o Mosteiro de Santa Clara a Nova e ao atrair milhares de visitantes através da mediação cultural.

 

Saímos do Ruhr com redes de parceria consolidadas junto da International Foundation Manifesta e com a certeza de que a Manifesta 17 será um impulsionador decisivo para o nosso território e para as nossas comunidades. Ao funcionar como um instrumento estratégico global que injeta visibilidade internacional, rigor e coerência no planeamento urbano, permitirá a transformação permanente do tecido social, aliada a novas formas de mobilidade e à desejada afirmação de Coimbra.

 

Publicado na edição de 22/06/2026 do Diário de Coimbra

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