Por um lado, Coimbra regista um saldo natural negativo acumulado de menos 2.200 pessoas, fruto de um envelhecimento nativo com mais óbitos do que nascimentos e um índice superior a 220 idosos por 100 jovens. Por outro lado, o saldo migratório altamente positivo, com uma entrada líquida superior a 8.300 novos residentes, funcionou como motor de crescimento. Este fluxo compensou totalmente a perda biológica e garantiu um aumento real de mais de 6.100 habitantes no concelho.
A população estrangeira legalizada situa-se entre 16.000 e 18.000 residentes, representando 11% a 12% do total.
A comunidade brasileira lidera com mais de 60% deste fluxo, dividida entre profissionais e académicos atraídos pela Universidade. O concelho acolhe também cidadãos dos PALOP, uma comunidade asiática em forte crescimento focada no comércio e serviços, novos residentes do Leste Europeu e nómadas digitais ou reformados da Europa Central e do Norte.
Este fluxo concentrou-se na população jovem-adulta em idade ativa (18 aos 40 anos), rejuvenescendo a pirâmide demográfica através de estudantes internacionais e profissionais. Este último grupo trouxe consigo uma vaga de crianças entre os 0 e os 10 anos, o que evitou o encerramento de várias turmas de jardins de infância e escolas primárias nas freguesias.
Embora esta nova moldura humana tenha tornado as ruas mais jovens e cosmopolitas, a velocidade da transformação coloca desafios complexos num conjunto de áreas críticas: a crise habitacional e a pressão no mercado de arrendamento, a integração escolar com necessidade de professores de Português Língua Não Materna e mediadores, a adaptação da economia local para combater a precarização laboral, a mobilidade urbana, que deve garantir deslocações eficientes para os jovens e flexíveis para os seniores, e a coesão social, conciliando a população nativa idosa com a nova massa flutuante.
Estas áreas exigem uma redefinição da política municipal, inspirada em boas práticas internacionais. Para responder à habitação e ao alojamento estudantil, o município analisa referências como Viena, Berlim, Amesterdão, Lyon e Bolonha. Na integração escolar e retenção de talento, as inspirações vêm de Barcelona e Lovaina. Na mobilidade e no combate ao isolamento sénior, destacam-se os modelos de Copenhaga, Estrasburgo e Nantes.
Inspirada por estes exemplos, a intervenção local traduz-se em ações concretas. Na Educação, implementam-se gabinetes de apoio à inclusão e horários flexíveis. Na Saúde, reforçam-se as Unidades Móveis com sistemas de tradução telefónica imediata para consultas. No planeamento do espaço público, criam-se zonas inclusivas combinando áreas geriátricas e desportivas. Nos transportes, otimiza-se a intermodalidade em torno do MetroBus e soluções a pedido. Na Habitação, promove-se a reabilitação de imóveis devolutos no centro histórico e novas residências universitárias públicas.
O desafio estratégico para Coimbra já não é reverter a perda de população, mas gerir com eficácia o sucesso da sua atratividade.
O futuro depende da capacidade de traduzir estas linhas numa integração planeada e humanista, convertendo o crescimento demográfico em desenvolvimento sustentável, habitação justa, mobilidade eficiente e coesão social para todos.
Publicado na edição de 23/06/2026 do Diário de Notícias